A EVOLUÇÃO DO VIDRACEIRO: DA BAGUETE DE MADEIRA AO VIDRO INTELIGENTE
- RODRIGO H. SANDIM

- há 11 horas
- 4 min de leitura

1920/1930 — A época da baguete de madeira, da massa e do vidro estirado
Muito antes dos silicones estruturais, das ventosas modernas e dos vidros de controle solar, o vidraceiro trabalhava praticamente na base da experiência, da coragem e da força física.
Nas décadas de 20 e 30, era extremamente comum o uso de baguetes de madeira para fixação dos vidros. Em muitas aplicações residenciais e comerciais, o vidro era preso mecanicamente com madeira antes mesmo da massa de vidraceiro dominar boa parte das instalações urbanas.
Depois, a massa passou a ganhar força por facilitar vedação e acabamento.
Na indústria, o desafio daquela época era outro: tentar produzir chapas cada vez mais planas e com menos distorções ópticas.
Muito antes do float moderno, os fabricantes utilizavam sistemas de vidro estirado, onde a massa de vidro era puxada mecanicamente através de processos que utilizavam rolos, moldes, ganchos e torres de estiramento vertical ou horizontal.
Mesmo assim, o resultado ainda apresentava irregularidades visuais quando comparado ao padrão atual.
E o transporte era pesado.
Muito pesado.
Boa parte dos profissionais carregava estruturas de madeira apoiadas nas costas, levando chapas praticamente na força humana pelas cidades.
Era um mercado extremamente artesanal e totalmente dependente da habilidade manual do vidraceiro.

1950 — O mercado começa a se industrializar
O pós-guerra acelerou violentamente a construção civil no mundo inteiro.
As cidades cresceram, os prédios começaram a subir e o vidro passou a ganhar mais espaço em vitrines, fachadas comerciais e construções urbanas.
Ao mesmo tempo, a indústria buscava maneiras de aumentar produtividade, qualidade óptica e padronização.
As ferramentas começaram a evoluir, os cortes ficaram mais precisos e os sistemas de instalação começaram lentamente a abandonar parte da improvisação das décadas anteriores.
O setor ainda era muito manual, mas já existia um movimento claro de industrialização.

1959 — O float glass muda a história do vidro
Em 1959 acontece uma das maiores revoluções da história da indústria vidreira.
Sir Alastair Pilkington desenvolve o processo float glass, na Inglaterra.
O conceito mudaria completamente o mercado mundial.
O vidro derretido passava sobre estanho líquido e saía extremamente plano, com qualidade óptica muito superior e produção contínua em larga escala.
Praticamente todo vidro arquitetônico moderno produzido no planeta hoje nasce desse processo.
Foi a partir daí que o vidro começou realmente a ganhar outra dimensão na arquitetura.
As fachadas cresceram, os projetos ficaram mais ousados e a precisão das instalações mudou completamente de patamar.

1970 — O vidro vira linguagem arquitetônica
Nos anos 70, o vidro deixa de ser apenas fechamento e passa a participar diretamente da estética dos edifícios.
As fachadas envidraçadas começam a crescer no mundo inteiro, principalmente em edifícios corporativos.
O alumínio ganha força, as esquadrias evoluem rapidamente e o mercado passa a exigir um profissional muito mais técnico.
Já não bastava apenas cortar vidro.
O vidraceiro começou a precisar entender alinhamento, estrutura, vedação, dilatação e compatibilidade entre materiais.
Foi também nessa época que o vidro temperado ganhou espaço e mudou completamente o nível de segurança das aplicações.
1980/1990 — O setor acelera tecnicamente
As décadas de 80 e 90 transformaram o setor num ambiente muito mais industrializado.
Entraram em cena as lapidadoras industriais, as furações automatizadas, as ferragens mais sofisticadas, os silicones estruturais e os sistemas de instalação muito mais avançados.
O vidro passou a ocupar aeroportos, shoppings, edifícios corporativos e projetos arquitetônicos de alto padrão.
A instalação ficou mais limpa, mais rápida e muito mais técnica.
Foi nessa época que o setor começou a assumir definitivamente um perfil profissionalizado e industrial.
2000 — A produtividade muda a rotina das vidraçarias
Os anos 2000 mudaram completamente a operação do mercado.
Ventosas profissionais, parafusadeiras, furadeiras específicas, ferramentas diamantadas, equipamentos de transporte e novos sistemas de fixação aceleraram absurdamente a produtividade das equipes.
Ao mesmo tempo, os projetos arquitetônicos ficaram maiores, mais sofisticados e muito mais exigentes.
O vidro deixou de ser apenas fechamento.
Passou a entregar conforto, desempenho, sofisticação, segurança e valorização arquitetônica.
O vidraceiro passou a trabalhar cada vez mais integrado com arquitetos, engenheiros, serralheiros e fabricantes de esquadrias.

2010/2020 — O vidro inteligente entra em cena
Se nas décadas anteriores o desafio era estrutural, nos anos 2010 o foco passou a ser desempenho.
Os vidros de controle solar e os sistemas de alta performance evoluíram rapidamente.
Hoje, determinadas composições conseguem permitir entrada de luminosidade natural enquanto reduzem grande parte da carga térmica e da radiação solar.
Em muitos casos, os sistemas conseguem bloquear mais de 70%, 80% e até acima de 90% da radiação solar.
Isso muda completamente o conforto interno, a eficiência energética, a climatização e o desempenho térmico das edificações.
Enquanto isso, empresas como Cebrace, Vivix, AGC, Guardian Glass e Saint-Gobain ajudaram a elevar o nível tecnológico do vidro arquitetônico disponível no mercado mundial e também no Brasil, ampliando o acesso a vidros cada vez mais sofisticados, com controle solar, eficiência energética e desempenho térmico muito acima do que existia poucas décadas atrás.
O vidro deixou de ser apenas um elemento arquitetônico.
Virou tecnologia aplicada diretamente à construção civil.
O que continua igual
Mesmo com toda a evolução tecnológica, uma coisa continua atravessando gerações dentro das vidraçarias e serralherias.
O cuidado no manuseio.
A leitura do vidro.
A precisão da instalação.
E o orgulho da profissão.
Mudaram as máquinas, mudaram as ferramentas, mudaram os sistemas e mudou a tecnologia.
Mas o vidraceiro continua evoluindo junto com o vidro.






















Comentários