E AS PERDAS NO ÚLTIMOS ANOS PARA VIDRACEIROS E SERRALHEIROS
- RODRIGO H. SANDIM

- há 3 horas
- 4 min de leitura

Estamos Trabalhando Mais e Ganhando Menos?
Há vinte anos, uma vidraçaria ou serralheria costumava produzir menos obras por mês e, ainda assim, conseguia manter uma rentabilidade que hoje parece distante.
O curioso é que o setor evoluiu, equipamentos melhoraram, veículos ficaram mais eficientes, a comunicação ficou instantânea, os softwares simplificaram orçamentos e projetos.
Mas, para muitos empresários, a sensação é exatamente a oposta: trabalha-se mais e sobra menos dinheiro.
E essa percepção não surge apenas da memória de quem viveu outras fases do mercado.
Estudos do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) apontam que a produtividade da economia brasileira enfrenta dificuldades de crescimento há décadas. Segundo o instituto, o avanço da renda e da capacidade de geração de riqueza depende diretamente do aumento da produtividade, algo que tem apresentado evolução limitada em diversos períodos da economia nacional.
O Que Mudou?
No início dos anos 2000, era comum que um orçamento fosse solicitado presencialmente.
O cliente tinha poucas opções de comparação.
A decisão de compra era mais baseada em confiança e relacionamento.
Hoje, um cliente consegue solicitar diversos orçamentos em poucos minutos pelo WhatsApp.
Isso aumentou a concorrência e transformou o preço em um dos principais critérios de decisão.
O que antes exigia dias de pesquisa hoje leva poucos minutos, poder de negociação do cliente aumentou de forma significativa.
O Produto Ficou Melhor, Mas Mais Barato
Uma janela da linha Suprema, uma porta de veneziana, um box de vidro temperado ou uma fachada instalada atualmente possuem qualidade, acabamento e recursos superiores aos de muitos produtos vendidos duas décadas atrás.
Mesmo assim, quando os valores são comparados com a evolução dos custos operacionais, muitos empresários afirmam que os preços praticados não acompanharam a mesma velocidade de crescimento das despesas.
O setor se modernizou, incorporou novas tecnologias, melhorou acabamentos, ampliou a variedade de soluções e passou a entregar produtos superiores aos de duas décadas atrás.
O problema é que essa evolução veio acompanhada de uma dificuldade cada vez maior de repassar custos para o preço final.
A Pressão dos Custos
Se por um lado os preços de venda enfrentaram uma forte pressão competitiva ao longo dos últimos anos, por outro os custos continuaram avançando.
Combustível, energia elétrica, aluguel, seguros, sistemas de gestão, veículos, ferramentas, equipamentos de proteção, impostos e mão de obra passaram por sucessivos aumentos.
Ao mesmo tempo, as exigências do mercado também cresceram.
Hoje o cliente espera atendimento imediato pelo WhatsApp, orçamento rápido, acompanhamento da obra, garantia formal, pós-venda eficiente e maior profissionalização.
Ou seja, não aumentaram apenas os custos diretos da instalação.
Também cresceram os custos administrativos, comerciais e operacionais.
Esse fenômeno é conhecido pelos economistas como pressão de custos.
Quando os custos sobem mais rapidamente do que a capacidade de reajustar preços, as margens de lucro diminuem.
Na prática, o empresário precisa vender mais apenas para manter o mesmo resultado financeiro que obtinha anteriormente.
É por isso que muitos profissionais têm a sensação de estar correndo cada vez mais rápido sem conseguir avançar na mesma velocidade.
Os Números Confirmam a Sensação do Setor
Essa percepção não aparece apenas nas conversas de balcão, nos grupos de WhatsApp ou nas reuniões entre empresários.
Uma pesquisa realizada pelo Jornal do Vidro entre o final de 2025 e o início de 2026 procurou entender como os profissionais do setor enxergam a evolução da rentabilidade ao longo das últimas duas décadas.
O resultado chamou atenção.
Os participantes relataram que as margens médias de lucro, que giravam em torno de 88% em 2006, passaram para aproximadamente 73% em 2011. Cinco anos depois já estavam próximas de 61%, recuaram para 49% em 2021 e chegaram a 37% em 2026.
Na prática, a pesquisa aponta uma redução próxima de 58% na margem média percebida pelos empresários ao longo de vinte anos.
Naturalmente, trata-se de um levantamento baseado na percepção dos profissionais entrevistados e não em auditorias contábeis individuais.
Ainda assim, os números ajudam a ilustrar uma reclamação recorrente em praticamente todas as regiões do país: hoje é necessário produzir mais, atender mais clientes, emitir mais orçamentos, responder mais mensagens e administrar uma operação mais complexa para obter um resultado financeiro que muitas vezes não acompanha esse aumento de esforço.
O dado se torna ainda mais relevante porque coincide com uma percepção frequentemente relatada por empresários experientes do setor. Muitos afirmam que produzem mais do que produziam há dez ou vinte anos, possuem mais ferramentas, mais tecnologia e mais estrutura, mas veem uma parcela menor do faturamento permanecer dentro da empresa.
A Guerra de Preços Empobreceu o Mercado
Durante anos, muitos profissionais acreditaram que reduzir preços era a única forma de conquistar clientes.
O resultado foi uma corrida para baixo, quando um reduz, o concorrente reduz mais.
Depois outro reduz ainda mais.
No final, todos trabalham mais para manter o mesmo faturamento — ou até um faturamento maior — mas com margens cada vez menores.
Economistas chamam esse fenômeno de compressão de margens: a empresa continua vendendo, muitas vezes até aumentando o volume de serviços, mas a lucratividade diminui.
Os dados levantados pelo Jornal do Vidro ajudam a visualizar exatamente esse processo.
Enquanto a demanda por rapidez, tecnologia e profissionalização aumentou, a parcela que efetivamente permanece no caixa das empresas parece ter seguido o caminho inverso.
Faturamento Não É Lucro...
Muitas empresas comemoram vender mais do que vendiam há dez anos.
Mas a pergunta importante é outra:
Quanto sobra no final do mês?
Em muitos casos, o faturamento cresceu, mas a rentabilidade caiu.
Isso ajuda a explicar por que tantas empresas vivem ocupadas, possuem agendas cheias e equipes trabalhando em ritmo intenso, mas continuam enfrentando dificuldades financeiras.
O problema não é apenas vender barato.
É vender barato enquanto todos os custos da operação continuam subindo.
Quando o preço não acompanha os custos, a empresa trabalha mais, assume mais riscos e vê uma parcela cada vez menor do resultado ficar em caixa.
O Desafio dos Próximos Anos
Talvez a principal discussão para o setor não seja como vender mais, seja como voltar a vender melhor.
Valorizar conhecimento técnico, qualidade de instalação, garantia, atendimento e credibilidade pode ser o caminho para interromper uma disputa baseada exclusivamente em preço.
Porque trabalhar mais deveria significar ganhar mais.
E não o contrário.
Fontes
Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea)
Pesquisa Setorial Jornal do Vidro 2025/2026
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