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VIDRACEIROS E SERRALHEIROS: POR QUE O DIA DO EMPREENDEDOR NOS REPRESENTA?

há 14 minutos
5 min de leitura
IMAGEM: Acervo Jornal do Vidro
IMAGEM: Acervo Jornal do Vidro
Dia do empreendedor

Micro e pequenas empresas responderam por cerca de 59% dos empregos formais criados no Brasil no primeiro semestre de 2026. No setor de vidros e esquadrias, o número ajuda a mostrar o tamanho de uma realidade que conhecemos há muito t

empo: empresas que começam pequenas, muitas vezes no aperto, acabam movimentando a economia e colocando gente para trabalhar.


Não é segredo para ninguém no nosso setor como nasce boa parte das vidraçarias e serralherias brasileiras. Normalmente não começa com investidor, linha de crédito disponível, departamento financeiro e um plano de negócios de cinquenta páginas em cima da mesa.


Começa com alguém que já trabalha no ramo. Um vidraceiro, serralheiro, instalador ou profissional que aprendeu o serviço trabalhando para outra empresa, percebe que consegue atender alguns clientes sozinho e decide tentar caminhar por conta própria. Algumas vezes existe um sonho antigo de ter o próprio negócio. Em muitas outras, existe simplesmente a percepção de que é possível ganhar melhor, ter independência ou criar uma alternativa de renda.

E nós sabemos também como são os primeiros meses,e muitas vezes os primeiros anos.

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Entrou dinheiro de uma obra, paga-se uma conta atrasada. Entrou outro sinal, compra-se material. Caiu mais algum dinheiro, tem mercado de casa, aluguel, combustível, ferramenta ou conta de luz esperando. Separar completamente o dinheiro da empresa do dinheiro pessoal é uma recomendação básica de administração, mas quem começa praticamente sem capital sabe que entre a teoria e a vida real existe uma distância enorme.


Pequeno para quem olha uma empresa. Gigante quando olhamos o conjunto

É justamente por isso que os números do emprego chamam atenção.

Dados do Caged compilados pelo Sebrae mostram que as micro e pequenas empresas criaram aproximadamente 543 mil vagas formais no primeiro semestre de 2026, o equivalente a cerca de 59% de todo o saldo de empregos gerados no país no período.


E quando olhamos para o nosso mercado fica fácil entender de onde saem esses números. Uma vidraçaria contrata um ajudante. Uma serralheria coloca mais um montador na equipe. Um distribuidor precisa de alguém no estoque. Outra empresa contrata atendimento. Um instalador que trabalhava sozinho começa a precisar de mais uma pessoa nas obras.

Isoladamente, estamos falando de uma, duas ou três contratações.

Multiplique isso pelas milhares de pequenas empresas espalhadas pelo Brasil e aparece o tamanho real dessa força.


Quem está no mercado sabe o peso de uma contratação

Existe outro detalhe que muitas estatísticas não conseguem mostrar: em uma pequena empresa, contratar alguém geralmente é uma decisão grande.

Nós conhecemos empresas em que o proprietário mede, vende, compra material, atende WhatsApp, vai para a obra, instala e ainda precisa cobrar o cliente no final do dia. Muitas vezes ele só coloca outra pessoa na equipe quando percebe que simplesmente não consegue mais fazer tudo sozinho.


Não é necessariamente falta de vontade de crescer.

É que contratar significa assumir um custo fixo em um mercado no qual o faturamento nem sempre é fixo. Tem mês cheio de serviço. Tem mês fraco. Tem obra que atrasa, cliente que demora para pagar, vidro que quebra, retrabalho que aparece e ferramenta que resolve dar problema justamente quando o caixa está apertado.

Por isso, quando uma pequena empresa do nosso setor abre uma vaga, quase sempre existe muita conta feita antes.


Empreender não significa começar capitalizado

Os dados mais recentes sobre empreendedorismo mostram que hoje uma parcela maior dos brasileiros abre empresas enxergando uma oportunidade de negócio, e não exclusivamente por falta de emprego.

Mas existe uma diferença enorme entre enxergar uma oportunidade e ter dinheiro para aproveitá-la. Isso nós conhecemos muito bem.


O profissional pode ter experiência, conhecer o produto, dominar instalação, ter relacionamento com fornecedores e até já possuir clientes esperando pelo serviço. Nada disso significa que ele tenha capital de giro, crédito barato ou dinheiro suficiente para manter a empresa enquanto ela começa a crescer.


No mercado de vidros e esquadrias existem inúmeras empresas que começaram com ferramenta própria, um veículo usado, telefone celular e disposição para trabalhar.

Algumas ficaram pelo caminho. Outras cresceram. Muitas continuam pequenas e saudáveis. E algumas daquelas empresas que começaram praticamente do zero hoje empregam dezenas de pessoas.


Saber trabalhar com vidro não ensina automaticamente a administrar uma empresa

Talvez esse seja um dos maiores desafios do nosso setor.

Grande parte dos empresários que chegaram até aqui aprendeu primeiro o ofício e depois precisou aprender a ser empresário.


Aprendemos a medir, instalar, cortar, calcular, montar, especificar e resolver problema de obra. Só depois aparecem fluxo de caixa, formação de preço, imposto, margem, contratação, estoque, planejamento, marketing e gestão de pessoas.

E normalmente ninguém para a empresa para aprender tudo isso.

A profissionalização acontece com a empresa funcionando, cliente ligando, obra acontecendo e boleto vencendo.


É justamente aí que muitos negócios enfrentam seus maiores riscos. Uma empresa pode ter serviço, cliente e conhecimento técnico e ainda assim sofrer porque não consegue formar preço corretamente, controlar custos ou organizar o caixa.


Crédito continua sendo uma dificuldade real

Também existe uma contradição conhecida por quem empreende pequeno.

O crédito costuma aparecer com mais facilidade justamente depois que a empresa já conseguiu demonstrar faturamento, histórico e capacidade financeira. No começo, quando o dinheiro faria maior diferença, conseguir boas condições pode ser muito mais complicado.


Então boa parte do investimento inicial acaba saindo do próprio trabalho.

Compra-se uma ferramenta depois de uma obra melhor. Troca-se o veículo quando sobra alguma coisa. Amplia-se o estoque aos poucos. Contrata-se alguém quando o movimento permite.


É crescimento financiado pelo próprio serviço, isso ajuda a explicar por que tantas empresas levam anos para estruturar aquilo que, visto de fora, parece simples.


5 de outubro: uma data que tem muito a ver com nosso mercado

O Dia Nacional da Micro e Pequena Empresa, celebrado em 5 de outubro, pode parecer apenas mais uma das inúmeras datas existentes no calendário.

Para o nosso setor, não deveria ser.

Vidraçarias, serralherias, instaladores, pequenas fábricas, distribuidores e prestadores de serviço representam uma parcela enorme da cadeia de vidros e esquadrias no Brasil.


E são justamente empresas com esse perfil que aparecem entre as principais responsáveis pela abertura de vagas formais no país.

Quando os pequenos negócios respondem por quase seis de cada dez empregos criados em um semestre, fica difícil continuar tratando a pequena empresa como um personagem secundário da economia brasileira.


Nós vemos essa economia funcionando todos os dias.

Ela está naquela empresa com dois funcionários. Na vidraçaria em que marido e mulher trabalham juntos. No serralheiro que finalmente conseguiu contratar o primeiro ajudante. No instalador que deixou de trabalhar sozinho. No pequeno distribuidor que começou com pouco estoque e hoje atende uma região inteira.


Quem está dentro deste mercado sabe o tamanho do esforço necessário para chegar até aí.

Talvez esteja justamente nisso a parte mais importante desses números: individualmente, nossas empresas podem ser pequenas.

Juntas, definitivamente não são.

 
 
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