top of page

QUANDO O VIDRO TEMPERADO COMEÇOU A SER UTILIZADO NO BRASIL?

Áudio da Matéria do dia 13 de Julho 2026

Entrei no mercado do vidro temperado em 2007. Antes disso, em 2004, tive uma experiência com chapas de vidro e espelhos, mas a minha introdução de fato no universo do vidro temperado aconteceu três anos depois.

E, desde aquela época, existia uma pergunta que sempre me acompanhava.

Afinal, de onde veio o vidro temperado? Como ele começou a ser utilizado no Brasil? Em que momento ele deixou de ser uma novidade para se transformar em um dos produtos mais importantes da construção civil?

É curioso como passamos anos trabalhando com um material sem conhecer a história dele.

Quando comecei, em 2007, o vidro temperado já fazia parte da rotina das vidraçarias. Portas, janelas, boxes, vitrines, divisórias e tantos outros tipos de fechamento pareciam aplicações absolutamente naturais.

Dava a impressão de que sempre havia sido assim.

Mas não foi.

Na verdade, a história do vidro temperado no Brasil começou muitas décadas antes de ele se espalhar pelas vidraçarias de praticamente todas as cidades do país.


A Santa Marina e o início da têmpera no Brasil

Quando procuramos os primeiros nomes ligados ao vidro temperado brasileiro, duas empresas aparecem como pioneiras: a Companhia Vidraria Santa Marina e a Santa Lúcia Cristais.

A Santa Marina já era uma das indústrias mais importantes da história do vidro nacional. Fundada em São Paulo no final do século XIX, inicialmente produzia garrafas, recipientes e vidro plano.

Foi ela que introduziu o vidro temperado no mercado brasileiro em 1937, quando essa tecnologia ainda estava muito distante da realidade das pequenas vidraçarias.

Naquele primeiro momento, o vidro temperado estava ligado principalmente à indústria e ao desenvolvimento do setor automobilístico. A têmpera permitia produzir um vidro mais resistente e que, ao se romper, se fragmentava de maneira muito diferente do vidro comum.

Não era ainda o mercado de portas, janelas e boxes que conhecemos hoje.

Era um produto industrial, concentrado nas mãos de poucas empresas e utilizado em aplicações muito específicas.

A própria Santa Marina, que mais tarde passou a fazer parte do grupo Saint-Gobain, tornou-se uma das empresas responsáveis pela introdução dos primeiros fornos verticais de têmpera utilizados no país.


A Santa Lúcia Cristais e o nascimento da Blindex

O outro nome fundamental nessa história surgiu em 1951.

Naquele ano, começou a operar em São Paulo a Santa Lúcia Cristais Ltda., empresa que nasceu com um pequeno forno plano, máquinas de lapidação, cavaletes e cerca de 70 funcionários.

A produção inicial era de aproximadamente 1.300 metros quadrados de vidro temperado por mês.

Foi também naquele momento que surgiu a marca Blindex.

A Santa Lúcia Cristais teve uma participação decisiva na transformação do vidro temperado em um produto conhecido pelo mercado brasileiro. Com o passar dos anos, a marca ganhou tamanha força que Blindex acabou se tornando, para grande parte dos consumidores, praticamente um nome genérico para vidro temperado.

Até hoje ainda existem pessoas que entram em uma vidraçaria e pedem um “vidro Blindex”, mesmo que o produto seja fabricado por outra temperadora.

Isso mostra o tamanho da influência que a empresa teve na formação desse mercado.

Portanto, quando falamos dos primeiros grandes temperadores do Brasil, precisamos colocar a Santa Marina e a Santa Lúcia Cristais entre os nomes centrais dessa história.

Foram essas duas empresas que introduziram e desenvolveram os primeiros processos industriais de têmpera no país, inicialmente por meio de fornos verticais.

Esses equipamentos tinham uma produtividade muito distante dos fornos atuais. Algumas referências do setor indicam uma capacidade entre 70 e 100 metros quadrados de vidro incolor de 10 milímetros durante um turno de oito horas.

Hoje, uma produção desse tamanho pode parecer pequena. Naquela época, entretanto, representava a introdução de uma tecnologia completamente nova na indústria brasileira.


Primeiro nos automóveis, depois nas construções

Os primeiros vidros temperados utilizados em maior escala no Brasil apareceram ligados à indústria automobilística.

Isso aconteceu antes de o produto se tornar comum na construção civil.

Com o crescimento da indústria de veículos no país, especialmente a partir das décadas de 1950 e 1960, aumentou também a necessidade de vidros de segurança.

Enquanto isso, na construção civil brasileira, o cenário ainda era completamente diferente.

O vidro comum continuava dominando grande parte das aplicações. E não era apenas uma questão de custo ou de hábito.

O próprio vidro plano disponível no Brasil apresentava limitações quando comparado ao material que utilizamos atualmente. Havia ondulações, variações de espessura e diferenças na qualidade óptica das chapas.

Mesmo assim, o vidro temperado já começava a encontrar espaço na arquitetura e na construção. Antes da chegada do float, empresas como a Santa Marina e a Santa Lúcia já produziam vidros temperados utilizando a matéria-prima disponível naquele período.

Por isso, é importante separar as duas histórias.

O vidro temperado não começou no Brasil com a chegada do processo float.

Ele já era produzido havia décadas.

O que o float fez foi oferecer uma chapa com muito mais qualidade e uniformidade para ser transformada.


A chegada do vidro float ao Brasil

Em 1979, a multinacional inglesa Pilkington comprou a Santa Lúcia Cristais. Naquela altura, a marca Blindex já possuía um valor tão importante no mercado brasileiro que foi mantida pela nova proprietária.

Poucos anos depois, aconteceu outra mudança fundamental para toda a indústria vidreira nacional.

Em 11 de novembro de 1982, entrou em operação a primeira linha de produção de vidro float do Brasil, na unidade da Cebrace.

Para quem entrou no mercado muitos anos depois, isso pode parecer apenas uma mudança no processo de fabricação da chapa.

Mas foi muito mais do que isso.

O vidro float trouxe maior planicidade, uniformidade de espessura e qualidade óptica. A indústria de transformação passou a trabalhar com uma matéria-prima muito mais regular e adequada à produção de peças maiores e a aplicações que exigiam melhor acabamento.

A chegada do float não criou o mercado brasileiro de vidro temperado.

A Santa Marina e a Santa Lúcia já haviam iniciado essa história.

Mas o float ajudou a mudar o tamanho e as possibilidades desse mercado.

Com uma chapa de melhor qualidade, as empresas de beneficiamento puderam ampliar a produção, melhorar os produtos e atender a uma arquitetura que começava a utilizar cada vez mais o vidro.


A expansão das temperadoras

Durante muitos anos, o processamento do vidro temperado ficou concentrado em poucas empresas.

Os primeiros fornos utilizados no Brasil eram verticais. Nesse tipo de equipamento, a chapa era suspensa por pinças, deixando marcas que ainda são conhecidas por profissionais mais antigos do setor.

Com o desenvolvimento dos fornos horizontais, o processo mudou completamente.

A chapa passou a percorrer o equipamento apoiada em roletes, permitindo maior produtividade, melhor controle do aquecimento e a fabricação de uma variedade muito maior de peças.

Durante as décadas de 1980 e 1990, novas empresas de beneficiamento começaram a surgir em diferentes regiões do país. A tecnologia deixou de ficar concentrada apenas nas grandes indústrias e passou a se aproximar dos mercados regionais.

Foi nesse período que o vidro temperado começou a ocupar cada vez mais espaço nas construções brasileiras.

Portas e janelas passaram a representar uma parte importante desse mercado. Junto delas vieram os boxes, as vitrines, as divisórias e diferentes tipos de fechamento.

Essa expansão também acompanhou o crescimento das esquadrias de alumínio e o desenvolvimento de ferragens específicas para a instalação do vidro temperado.

A indústria não vendia apenas grandes vitrines ou projetos especiais.

O volume estava, e durante muitos anos continuou estando, principalmente nas portas, nas janelas e nos boxes instalados diariamente pelas vidraçarias.


O crescimento dos anos 2000

Nos anos 2000, essa expansão ganhou ainda mais força.

Mais temperadoras foram instaladas em diferentes estados, os equipamentos evoluíram, as distâncias entre a indústria e o vidraceiro diminuíram e o vidro temperado passou a chegar a cidades nas quais antes o acesso ao produto era muito mais difícil.

A combinação entre fornos mais modernos, ferragens específicas, evolução das normas técnicas e uma arquitetura cada vez mais aberta ao uso do vidro fez com que o temperado deixasse de ser uma solução diferenciada.

Ele passou a ser praticamente um padrão em portas, janelas, boxes, vitrines, divisórias e inúmeras outras aplicações.

Quando entrei nesse mercado, em 2007, encontrei justamente esse cenário.

O vidro temperado já estava consolidado. Havia temperadoras distribuídas por diversas regiões, caminhões realizando entregas diariamente e vidraçarias trabalhando com medidas, recortes, furos, ferragens e instalações como parte normal da sua rotina.

O que eu não imaginava era que existia uma história inteira por trás daquela consolidação.

Uma história que havia começado pelo menos 70 anos antes, com a Santa Marina introduzindo o produto no Brasil, e que ganhou um novo capítulo em 1951, com a Santa Lúcia Cristais e o surgimento da marca Blindex.

Depois vieram a indústria automobilística, a expansão na construção civil, a chegada do vidro float, o avanço dos fornos horizontais, a multiplicação das temperadoras e o crescimento das vidraçarias.

Hoje, olhando para trás, fica fácil perceber que o crescimento do vidro temperado não aconteceu por causa de um único fator.

Foi a soma de tecnologia, qualidade da matéria-prima, investimentos em equipamentos, desenvolvimento das ferragens e da capacidade que o mercado brasileiro teve de transformar um produto inicialmente restrito em uma solução presente em praticamente todas as cidades do país.

Às vezes, passamos anos olhando apenas para o produto pronto.

Mas entender de onde ele veio ajuda a compreender a evolução da própria indústria do vidro brasileira.


Fontes

  • Blindex – História da Marca

    • História da marca Blindex.

    • Evolução da Santa Lúcia Cristais.

    • Consolidação da marca Blindex no mercado brasileiro.

  • Blindex – A Empresa

    • Fundação da Santa Lúcia Cristais em 09/01/1951.

    • Produção inicial de aproximadamente 1.300 m²/mês.

    • Primeiros fornos de têmpera.

    • Produção para arquitetura e setor automotivo.

    • Aquisição pela Pilkington em 1979.

  • Cebrace – A História do Vidro

    • História da indústria do vidro no Brasil.

    • Desenvolvimento do processo float.

    • Implantação da primeira fábrica de vidro float em 1982.

    • Evolução da indústria vidreira brasileira.

  • Cebrace – Sobre Nós (Linha do Tempo)

    • Fundação da Cebrace.

    • Início da primeira linha float em 11 de novembro de 1982.

    • Cronologia da expansão da produção brasileira.

  • Pilkington – A Revolução do Floathttps://alumifix.com.br/

    • Criação da Cebrace.

    • Parceria Saint-Gobain/Pilkington.

    • Contexto da chegada do vidro float ao Brasil.


OFERECIMENTO


 
 
 

Comentários


bottom of page