O SETOR ESTÁ MELHOR OU PIOR DO QUE HÁ CINCO ANOS?
Atualizado: 5 de ago.

Responder a essa pergunta não é tão simples quanto parece.
Quem acompanha o mercado há algum tempo provavelmente responderá que ele mudou muito mais do que melhorou ou piorou. A transformação foi profunda e aconteceu em um espaço de tempo muito curto.
Na realidade, o mercado de vidros e esquadrias passou por uma das maiores mudanças de sua história recente. E entender essas mudanças ajuda a explicar por que tantos empresários afirmam trabalhar mais, investir mais e, mesmo assim, encontrar muito mais dificuldade para manter a rentabilidade.
A pandemia mudou completamente o mercado
A primeira grande transformação aconteceu durante a pandemia.
Com milhões de pessoas confinadas em casa, a residência deixou de ser apenas um local para descanso. Ela passou a ser escritório, escola, academia e espaço de convivência.
Isso fez com que famílias investissem muito mais em reformas, ampliações e melhorias em seus imóveis.
O resultado foi uma explosão na demanda não apenas pelo setor vidreiro, mas por praticamente toda a cadeia ligada à construção civil, acabamentos e interiores.
Mesmo após o fim das restrições, esse aquecimento permaneceu por mais de um ano.
Outro fator importante foi a consolidação do home office. Muitas residências passaram a contar com espaços específicos para trabalho, aumentando a procura por esquadrias, fechamentos de ambientes, divisórias e soluções em vidro.
Foi um momento de crescimento. Mas também o início de uma transformação que continua influenciando o mercado até hoje.
Conhecimento deixou de ficar dentro das empresas:
Durante décadas, a principal escola do setor foi a própria vidraçaria.
O profissional começava como ajudante, aprendia observando os mais experientes, tornava-se instalador e, depois de muitos anos, sentia-se preparado para abrir a própria empresa.
Esse cenário mudou.
Nos últimos anos surgiram dezenas de cursos presenciais, treinamentos online, consultorias, canais especializados e fabricantes investindo fortemente em capacitação.
O conhecimento deixou de estar concentrado dentro das empresas.
Hoje ele está disponível para praticamente qualquer pessoa interessada em entrar no setor.
Essa mudança reduziu drasticamente o tempo necessário para que um profissional adquirisse confiança para empreender.
Nunca foi tão fácil entrar no mercado:
O movimento de funcionários deixando empresas para abrir o próprio negócio sempre existiu.
A diferença é que ele ganhou velocidade.
A demanda gerada durante e logo após a pandemia fez muita gente acreditar que havia espaço para empreender.
Ao mesmo tempo, o acesso ao conhecimento técnico nunca foi tão simples.
Cursos presenciais, treinamentos online e conteúdos gratuitos passaram a formar novos profissionais em uma velocidade muito maior do que há cinco anos.
Além disso, abrir uma empresa continua sendo relativamente simples.
No mercado de vidros e esquadrias, praticamente qualquer pessoa pode adquirir ferramentas, abrir um CNPJ e começar a disputar clientes.
Essa facilidade aumentou significativamente o número de empresas atuando no setor.
Um mercado muito mais pulverizado
Essa talvez seja a maior transformação dos últimos cinco anos.
O mercado ficou muito mais pulverizado.
Hoje existem muito mais empresas disputando praticamente os mesmos clientes.
Empresas estruturadas passaram a concorrer diretamente com pequenos empreendedores.
Indústrias passaram a disputar obras com empresas de pequeno porte.
Em alguns casos, empresas com estruturas completamente diferentes acabam concorrendo pelo mesmo orçamento.
Essa realidade aumentou a pressão sobre os preços.
Quanto maior a oferta de empresas, maior a disputa por clientes.
E quando a competição acontece principalmente pelo preço, quem perde é a margem de lucro.
Essa é uma das principais reclamações de empresários em praticamente todas as regiões do país.
A tecnologia avançou, mas os desafios também
Ao mesmo tempo em que a concorrência aumentou, o setor continuou evoluindo tecnicamente.
Vidros laminados, insulados, chapas jumbo e soluções de maior desempenho ganharam espaço, tendência apontada pelo Panorama Abravidro 2026.
Esses produtos exigem investimentos, equipamentos modernos, mão de obra preparada e processos cada vez mais eficientes.
Ou seja, competir também ficou mais caro.
Os números ajudam a entender esse momento:
Os indicadores recentes reforçam essa percepção.
O Termômetro Abravidro registrou queda de 1,6% nas vendas faturadas de vidros processados em maio.
Na ocasião, o presidente da Abravidro, Victor V. Casaca, afirmou que o setor continua vivendo uma "gangorra", sem conseguir recuperar completamente a forte retração registrada no fim de 2025.
No editorial publicado pela revista Vidroplano, Casaca também chamou atenção para outro problema: a elevada ociosidade da indústria.
Mesmo com a redução das importações provocada pelo aumento do frete marítimo, o volume de vidro temperado importado permaneceu acima de cinco mil toneladas pelo terceiro mês consecutivo.
São indicadores que mostram um mercado pressionado.
A concorrência também vem de fora
Além do aumento do número de empresas brasileiras, fabricantes nacionais também passaram a enfrentar uma presença cada vez maior de produtos importados.
Vidros processados, Portas prontas e Janelas prontas.
Principalmente vindos da China.
Esse movimento amplia ainda mais a concorrência e aumenta a pressão sobre preços e margens.
Outro tema que passou a fazer parte da rotina das empresas foi o Mercado Livre de Energia.
Para indústrias eletrointensivas, ele representa uma oportunidade importante de reduzir custos.
Por outro lado, a recente instabilidade enfrentada pelas comercializadoras mostrou que até mesmo economizar energia passou a exigir muito mais planejamento e gestão dos riscos.
Então... o setor está melhor ou pior?
Talvez a resposta seja outra.
O mercado mudou de configuração.
Hoje existe mais tecnologia, mais informação disponível e muito mais conhecimento circulando do que havia cinco anos atrás.
Ao mesmo tempo, nunca foi tão fácil entrar no setor.
Cursos presenciais e online multiplicaram o acesso ao conhecimento, fabricantes passaram a investir fortemente em capacitação e milhares de profissionais deixaram seus empregos para abrir as próprias empresas.
Esse movimento aumentou significativamente o número de concorrentes e fragmentou um mercado que já era competitivo.
Ao mesmo tempo, a indústria convive com capacidade ociosa, oscilações nas vendas apontadas pelo Termômetro Abravidro, crescimento das importações e uma disputa por preços cada vez mais intensa.
Talvez essa seja a maior transformação dos últimos cinco anos.
O empresário continua precisando conquistar clientes.
Mas, hoje, o desafio é fazer isso preservando margem, mantendo a empresa saudável e competindo em um mercado muito mais disputado do que aquele que existia há apenas cinco anos.
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