NA OBRA: INSTALAÇÃO DE GRANDES FACHADAS
- RODRIGO H. SANDIM

- há 1 dia
- 6 min de leitura

Novo colunista do Jornal do Vidro, Daniel Prado conta o que acontece no canteiro quando o projeto sai do papel, e por que instalar uma grande fachada envolve muito mais do que vidro, alumínio e técnica
Quem vê uma grande fachada pronta dificilmente imagina tudo o que aconteceu até o último vidro ser instalado.
A partir de agora, o Jornal do Vidro passa a contar também com o olhar de quem está justamente nesse outro lado da obra. Daniel Prado chega ao jornal como nosso colunista de obras, trazendo a experiência de quem trabalha diretamente na instalação de fachadas pelo Brasil.
Especializado em fachadas — de pele de vidro a sistemas unitizados e modulares — Daniel vive uma rotina que envolve grandes estruturas, equipes trabalhando longe de casa, cronogramas apertados, interferência de outras etapas da construção e problemas que precisam ser resolvidos ali mesmo, no canteiro.
Nesta entrevista de apresentação, pedimos a ele que contasse aquilo que normalmente não aparece nas fotografias das obras prontas: o que realmente dá trabalho em uma grande fachada? O que pode dar errado? O que parece simples para quem olha de fora? E o que um vidraceiro precisa aprender antes de entrar nesse universo?
Qual é a maior dificuldade em uma obra grande?
Na verdade, tudo dá trabalho. É um conjunto de coisas.
Mas, para ficar mais palpável e menos abstrato, eu diria que uma das maiores dificuldades é a movimentação do material e o acesso para a instalação.
É separar aquilo que será instalado naquela fase, levar esse material até o local e conseguir acessar fisicamente o ponto onde você precisa trabalhar naquele dia ou naquela semana.
Eu já precisei subir colunas de cinco ou seis metros pelo andaime fachadeiro, fazendo uma espécie de “passa-passa”: cada cara ficava em um pavimento e a gente ia subindo o material até chegar, por exemplo, ao sétimo andar. Era a etapa que estava liberada e aquela era a frente de serviço que tínhamos.
Já precisei instalar painel de fachada usando PTA no barro, porque era o que estava liberado naquele momento.
Também já instalei quadro de fachada em um espaço completamente apertado porque ainda não tinham quebrado uma parede que precisava ser quebrada antes. Mas aquela era a etapa disponível.
É sempre assim? Não. Mas é comum.
E tem outra coisa: o cara está a mil quilômetros de casa, no trecho. Tem alojamento alugado para a equipe, passagem de avião ou ônibus, deslocamento de carro, funcionários recebendo... Existe um custo muito alto acontecendo todos os dias.
Você não vai simplesmente chegar para a engenharia da construtora e dizer: “Olha, não vou fazer agora. Quando estiver em uma condição melhor, eu volto e faço a minha fachada”.
Não vai.
A gente precisa produzir.
Obviamente existem todas as exigências de segurança — ART, PT, isolamento da área, checklist de ferramentas, NRs e tudo o que envolve uma instalação segura. Mas, dentro dessas condições, existe uma pressão muito grande para produzir independentemente das dificuldades daquele momento da obra.
E talvez essa seja uma das maiores diferenças em relação a uma obra residencial: nas grandes obras, as frentes são liberadas por etapas. O desafio é manter a produtividade mesmo quando a etapa que você recebeu está no meio do caos. E obra, muitas vezes, é um caos.
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O que pode dar errado?
Medidas e projeto são dois pontos importantes.
Às vezes o projeto não bate perfeitamente com aquilo que encontramos na obra. Isso pode ser grave ou pode ser relativamente simples de resolver.
Você perde um ou dois vidros, por exemplo, pede outros e resolve. Claro que existe custo e logística, mas, se você ainda está no meio da obra, normalmente há outras remessas de material chegando.
Você informa para a empresa os materiais faltantes, algum vidro que quebrou ou uma medida que não bateu, e aquilo pode vir junto nas próximas cargas.
O problema é quando isso acontece no final.
Aí, meu amigo, é B.O.
No meio da obra ainda existe material chegando e existe tempo. No final, faltar uma única peça pode virar um problema muito maior.
O que parece simples para quem olha de fora, mas é complicado para quem instala?
Dar a saída.
É assim que a gente chama.
Dar a saída é encontrar na obra onde vai a primeira coluna. É olhar para aquele espaço enorme e determinar um ponto a partir do qual você vai seguir as medidas do projeto com a responsabilidade de que, lá na frente, tudo vai bater.
É uma responsabilidade enorme.
Porque, se você der a saída errada e descobrir muito depois que as medidas não fecharam, pode ter que desmontar tudo e fazer novamente.
Isso é extremamente frustrante e custa muito dinheiro.
Dependendo do erro, pode custar até o emprego. Ou fazer com que aquela empresa não passe mais obras para você.
Quem olha de fora vê um montador conferindo algumas medidas e talvez nem imagine o que está passando pela cabeça dele naquele momento.
Qual foi a maior encrenca que você já precisou resolver?
Bah! Qual delas?
São muitas. Sério. Cada obra apresenta uma diferente.
Já precisei cortar vidro laminado fazendo praticamente um recorte em “L”.
Em outra situação, tivemos que deixar uma fachada um pouco fora de prumo porque o pré-moldado estava muito ruim em relação ao granito e não havia como fazer a fixação corretamente. A própria obra autorizou a solução e depois foi feito um complemento em ACM para esconder os problemas que existiam lá em cima.
Outra encrenca é quando você começa a encontrar uma sequência de ferro dentro dos pré-moldados.
Isso quebra o cara.
O serviço simplesmente não rende. Você precisa ficar procurando novos pontos para conseguir fazer a fixação.
E estamos falando de broca de 10 mm e parafuso Hard, fazendo rosca direto no concreto, sem bucha.
É bruto o negócio.
Arrebenta braço, ombro... E geralmente você ainda está trabalhando debaixo do sol. Imagine pegar várias colunas assim no mesmo dia.
Isso é B.O.
Existe alguma técnica ou ferramenta que você usa e que pouca gente conhece?
Eu uso uma talhadeira com proteção feita com fita ou borracha para fazer as instalações dos quadros em fachada glazing.
Inclusive, fiz um vídeo ensinando isso no Instagram da Diamond e ele viralizou.
Não vejo muita gente falando ou fazendo dessa maneira. Eu aprendi com um antigo chefe e levei isso para o meu trabalho.
É uma daquelas soluções simples que você aprende na prática.
O que um vidraceiro precisa aprender para começar a pegar obras maiores?
Várias coisas. É um conjunto.
Mas eu acredito que precisa aprender principalmente comportamento.
Obra grande tem muita política. Se você souber jogar o jogo, você continua.
Precisa saber a hora de ficar calado, a hora de falar nas reuniões e precisa saber tudo o que está acontecendo no seu setor. Porque, do nada, alguém vai te parar dentro da obra e fazer uma pergunta, e você precisa saber responder.
Toda semana tem reunião. Está lá o responsável pela pintura, pelo gesso, pela elétrica, pelo piso, pelos vidros, pela hidráulica...
E um serviço interfere no outro.
Então é preciso ter jogo de cintura para não atrapalhar os outros empreiteiros e também não deixar que eles atrapalhem você. Existe uma política de ajuda mútua dentro da obra.
Fazer amizade com o mestre de obras, por exemplo, é fundamental. Esse cara muitas vezes vai te ajudar mais do que o engenheiro, mais do que o técnico de segurança e até mais do que a própria empresa.
Também precisa entender que obra grande leva tempo e que pessoas vão sair da sua equipe no meio do caminho.
Às vezes existe alguém importante visitando a obra. Talvez você precise que essa pessoa veja você, saiba quem você é e conheça o seu trabalho. As reuniões acontecem o tempo todo e pessoas que têm influência sobre aquela obra precisam, pelo menos, saber quem você é.
Isso também faz parte.
E vai ter dia em que você simplesmente vai organizar material e não vai produzir nada. E está tudo bem.
Em resumo, eu acho que quem quer trabalhar com grandes obras precisa desenvolver também esse comportamento político.
Em obras residenciais eu não vejo isso com a mesma intensidade, porque geralmente são serviços rápidos. Em uma obra grande, você vai conviver com aquelas pessoas e com aquela estrutura durante muito tempo.
E como é a vida de quem trabalha “no trecho”?
Tem uma curiosidade que muita gente talvez não saiba: em uma obra grande, quase ninguém é daquela cidade.
Eu diria que 95% do pessoal está no trecho.
Então você pode ficar muito tempo trabalhando em uma cidade, mas as pessoas com quem mais conversa também vieram de fora.
Quer descobrir supermercado, farmácia, academia, algum lugar para passear?
Se vira!
Outra curiosidade é que, em grandes obras, as extensões elétricas não podem simplesmente ficar espalhadas pelo chão. Elas ficam suspensas, e são utilizados sistemas de tomadas específicos para o ambiente de obra.
São detalhes pequenos para quem vê de fora.
Para quem vive o canteiro todos os dias, fazem parte de um mundo completamente diferente.






