VIDRACEIRO, SERRALHEIRO: VOCÊ TEM MEDO DE FORMAR UM PROFISSIONAL DENTRO DA TUA EMPRESA E ELE SE TORNAR CONCORRENTE?
- RODRIGO H. SANDIM

- 13 de jul.
- 4 min de leitura
Atualizado: 14 de jul.

Vou tocar em um assunto que incomoda muita gente no nosso setor e que, na minha opinião, precisa deixar de ser um tabu.
Quantos empresários deixam de ensinar um funcionário porque têm medo de que ele aprenda o serviço, abra uma empresa e, poucos meses depois, passe a disputar os mesmos clientes?
Depois de mais de 20 anos conversando diariamente com vidraceiros, serralheiros, distribuidores, têmperas e fabricantes de esquadrias, posso dizer uma coisa: esse medo existe. E não é porque o empresário seja egoísta ou não queira ver alguém crescer. Em muitos casos, ele simplesmente já viveu essa situação.
Na serralheria de alumínio isso acontece, mas existe uma barreira um pouco maior. Quem decide fabricar esquadrias precisa investir em máquinas, como serra de precisão, pantógrafo, prensa e outras ferramentas específicas. Precisa aprender processos de fabricação, usinagem, montagem, logística e ainda encontrar um espaço adequado para produzir.
Na vidraçaria, a realidade é bem diferente.
Um auxiliar aprende a instalar boxes, portas e janelas de vidro temperado e, em pouco tempo, muitos já acreditam que estão prontos para tocar o próprio negócio.
E, olhando apenas para a parte operacional, não dá para dizer que seja um pensamento totalmente sem fundamento.
Para começar a trabalhar, ele precisa de uma furadeira ou parafusadeira, uma bomba de silicone, algumas ferramentas básicas e disposição para atender clientes.
Hoje, muitas vezes, nem veículo próprio é necessário.
Grande parte das têmperas entrega o vidro diretamente na obra.
Ou seja, o novo vidraceiro vende o serviço, compra o material e recebe tudo no local da instalação.
Existe ainda um detalhe que pouca gente comenta.
Na maioria das empresas, quem vai buscar material na têmpera ou na distribuidora é justamente o auxiliar.
É ele quem conversa com vendedores, conferentes e motoristas.
É ele quem conhece a rotina dos fornecedores.
Em muitos casos, cria um relacionamento até maior do que o próprio dono da empresa.
Quando decide abrir um CNPJ, ele já sabe onde comprar, conhece os processos, conhece os preços e, muitas vezes, já conhece também boa parte dos clientes.
Hoje abrir uma empresa também nunca foi tão simples.
Com a facilidade da formalização, inclusive por meio do MEI quando a atividade se enquadra nas ocupações permitidas, muita gente consegue iniciar um negócio rapidamente. O problema é que abrir uma empresa não exige, necessariamente, comprovar conhecimento técnico da profissão.
E aqui existe uma diferença importante.
As ocupações de vidraceiro e de serralheiro estão previstas na Classificação Brasileira de Ocupações (CBO), do Ministério do Trabalho. Ou seja, o Estado reconhece que essas profissões existem.
Mas isso não significa que elas sejam profissões regulamentadas.
Hoje não existe uma exigência nacional de certificação profissional, formação obrigatória ou avaliação técnica para que alguém possa exercer essas atividades.
Na prática, aprende-se trabalhando.
E, depois de aprender, qualquer pessoa pode decidir abrir o próprio negócio.
Infelizmente, existe outro comportamento que também faz parte da realidade do mercado.
Alguns profissionais nem esperam sair da empresa para começar a construir a própria carteira de clientes.
Enquanto ainda trabalham como funcionários, já começam a fazer contatos, distribuir cartões, conversar com clientes e preparar o terreno para a futura empresa.
Quando deixam o emprego, parte desse caminho já foi construída.
É claro que isso não acontece com todo mundo.
Conheço excelentes profissionais que passaram anos vestindo a camisa das empresas onde trabalharam.
Conheço outros que decidiram empreender de forma correta, respeitando quem lhes ensinou a profissão.
Mas também conheço histórias que fizeram muitos empresários perderem completamente a confiança em ensinar.
Existe ainda outro personagem importante nessa discussão: o fornecedor.
Antes de qualquer crítica, é preciso reconhecer que existem têmperas e distribuidores extremamente éticos, que respeitam seus clientes e procuram agir com responsabilidade comercial.
Mas também sabemos que muitos vendem para qualquer novo CNPJ e, em alguns casos, até para pessoas físicas.
E é fácil entender por quê.
Essas empresas também precisam vender.
Elas vivem de vender vidro, ferragens e acessórios.
Não faz sentido colocar toda a responsabilidade sobre elas.
Na verdade, elas apenas trabalham dentro das regras que existem hoje.
Talvez seja justamente aí que esteja o ponto central desta discussão.
Será que o problema está no auxiliar que decidiu empreender?
No empresário que ficou receoso de ensinar?
No fornecedor que precisa vender?
Ou será que o problema está no próprio modelo do mercado?
Hoje praticamente não existe nenhuma barreira técnica para alguém começar a atuar como vidraceiro.
E talvez seja justamente isso que faz muitos empresários enxergarem o treinamento de um funcionário como um risco, quando deveria ser um investimento.
Não estou defendendo reserva de mercado.
Também não estou dizendo que as pessoas não devam empreender.
Empreender é um direito de qualquer brasileiro.
O que estou propondo é uma reflexão.
Será que atividades que envolvem instalação de vidros, ferragens, segurança e responsabilidade técnica não deveriam discutir algum tipo de certificação profissional?
Não para impedir ninguém de trabalhar.
Mas para valorizar quem busca qualificação, criar um padrão mínimo de conhecimento e oferecer mais segurança para consumidores e para o próprio mercado.
Não sei qual seria o melhor caminho.
Se ele deveria partir das entidades do setor, dos sindicatos, das associações, da indústria, dos fornecedores ou até mesmo do poder público.
Também não sei se a certificação seria a melhor solução.
O que eu sei é que esse assunto precisa deixar de ser conversado apenas nos corredores das empresas e passar a ser debatido por todo o setor.
Porque, enquanto ensinar um profissional continuar sendo visto por muitos empresários como o primeiro passo para formar um concorrente, alguma coisa claramente precisa ser discutida.
E talvez esse debate já esteja atrasado há muitos anos.
OFERECIMENTO:






