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O VIDRO É PESADO E A COLUNA LEMBRA

IMAGEM: DEP. DE ARTE JORNAL DO VIDRO COM RECURSOS DE IA
IMAGEM: DEP. DE ARTE JORNAL DO VIDRO COM RECURSOS DE IA

Vamos lá:

O vidro temperado é bonito quando está instalado. Ele vira box, porta, fachada, guarda-corpo, janela, vitrine, cobertura, divisão de ambiente. Para o cliente final, quase sempre aparece como acabamento. Para a arquitetura, aparece como transparência, luz, integração visual. Para a indústria, aparece como produto.

Mas, para o vidraceiro e o serralheiro, antes de ser beleza, o vidro é peso.

E peso repetido.


Peso que sai do cavalete. Peso que entra no caminhão. Peso que desce na obra. Peso que atravessa corredor. Peso que sobe escada. Peso que precisa ser virado, apoiado, encaixado, corrigido, sustentado e, muitas vezes, carregado em condições muito longe do ideal.


Essa é uma parte do mercado que quase nunca aparece nas propagandas. Fala-se muito do vidro. Fala-se muito da ferragem. Fala-se muito do perfil. Fala-se muito da linha, da marca, do acabamento, do lançamento.

Mas quem sente o peso real disso tudo é o profissional.


E é por isso que o Jornal do Vidro sempre colocou aspas no próprio nome: porque não se trata apenas do vidro. O profissional está acima do produto.


A pesquisa do Jornal do Vidro...

Entre o meio e o fim de 2021, o Jornal do Vidro realizou um levantamento próprio sobre a rotina física de vidraceiros e empresas que trabalham com vidro temperado. A pesquisa ouviu mais de 200 vidraçarias espalhadas pelo Brasil e teve também uma etapa de observação prática: durante cerca de um mês, acompanhamos a rotina interna de uma vidraçaria para cruzar o que era dito com o que acontecia no dia a dia.


O foco foi justamente nas empresas que trabalham com vidro temperado e esquadrias de alumínio, porque é nesse ambiente que a movimentação de peças pesadas aparece com mais frequência.


O resultado apontou um padrão preocupante: o vidraceiro médio brasileiro movimenta, em média, de 4 a 6 peças de vidro por dia, com peso aproximado entre 12 kg e 25 kg por peça.


Isso significa que, em um dia comum, esse profissional pode movimentar algo entre 48 kg e 150 kg de vidro.


Em um ano de trabalho, considerando 250 dias úteis, isso representa algo entre 12 toneladas e 37,5 toneladas movimentadas.


Em dez anos, a conta chega a algo entre 120 toneladas e 375 toneladas.

Em vinte anos, entre 240 toneladas e 750 toneladas.

Em trinta anos, entre 360 toneladas e 1.125 toneladas.


É claro que essa conta não significa que todo esse peso foi levantado sozinho, sempre da mesma forma ou nas mesmas condições. Muitas peças são carregadas em dupla. Algumas contam com ventosas, cavaletes, carrinhos ou apoio. Outras não.

Mas a conta serve para mostrar a ampulheta do desgaste.


Grão por grão, peça por peça, obra por obra, a coluna vai acumulando o que o mercado raramente contabiliza.

O problema não é só o peso. É o peso fora do ideal

A ergonomia mostra que o risco não depende apenas do número escrito na balança. Depende da distância da carga em relação ao corpo, da altura em que a peça é pega, da necessidade de torcer o tronco, da frequência dos levantamentos, da qualidade da pega e do tempo de exposição.


A equação revisada de levantamento do NIOSH, uma das referências internacionais em ergonomia, trabalha justamente com essa lógica: ela não olha só o peso absoluto, mas calcula o limite recomendado conforme as condições reais da tarefa. A própria base do método parte de uma “constante de carga” de 23 kg em condições ideais, mas esse limite cai quando há alcance ruim, torção, frequência, deslocamento vertical ou pega inadequada.

E aqui está o ponto: o vidro raramente é movimentado em condição perfeita.


Vidro é liso. É cortante. É frágil. É pesado. Às vezes é grande demais para o espaço disponível. Às vezes passa por corredor estreito. Às vezes sobe escada. Às vezes precisa ser inclinado. Às vezes não tem ponto bom de pega. Às vezes a obra não está preparada para receber a peça.


No papel, uma peça de 25 kg pode parecer administrável. Na obra, uma peça de 25 kg pode virar um problema sério quando o profissional precisa carregá-la longe do corpo, com o tronco torcido, em piso irregular, com pressa, calor, pressão do cliente e risco de quebra.

A coluna não quebra de uma vez. Ela negocia por anos


A dor lombar é um dos problemas de saúde mais associados ao trabalho físico e à movimentação manual de cargas. A literatura sobre ergonomia aponta levantamento de peso, postura inadequada, repetitividade, excesso de força e ritmo intenso como fatores de risco para sintomas musculoesqueléticos.


A NR-17, norma brasileira de ergonomia, também trata o levantamento, transporte e descarga de materiais como tema de segurança e saúde do trabalhador. A norma proíbe, por exemplo, o levantamento não eventual de cargas que possa comprometer a saúde quando a distância horizontal da pega for superior a 60 cm em relação ao corpo.

Isso conversa diretamente com a rotina do vidro.


Quanto mais longe a peça fica do corpo, maior a exigência sobre a coluna. Quanto maior a peça, mais difícil manter o centro de gravidade controlado. Quanto mais escada, giro, desnível e improviso, maior o risco.

O problema é que muita dor de coluna começa como “dorzinha”.


Primeiro incomoda no fim do dia. Depois aparece ao levantar da cama. Depois trava em uma obra. Depois precisa de anti-inflamatório. Depois vem fisioterapia. Depois o profissional começa a evitar certos serviços. Depois deixa de pegar obra maior. Depois começa a escolher o que consegue fazer.

A coluna vai cobrando em parcelas.

O vidro temperado concentra responsabilidade física


O vidro temperado tem uma característica cruel para o corpo: ele concentra peso em uma peça rígida, delicada e perigosa.


Diferente de outros materiais que podem ser fracionados, dobrados, empilhados ou movimentados de forma mais flexível, o vidro precisa chegar inteiro. Uma peça grande não perdoa erro de pega. Não dá para amassar, jogar, apoiar de qualquer jeito ou improvisar sem consequência.

O profissional carrega peso e, ao mesmo tempo, carrega risco.


Risco de quebra. Risco de corte. Risco de acidente com terceiros. Risco de perder a peça. Risco de prejuízo. Risco de atrasar a obra. Risco de comprometer o nome da empresa.

Esse conjunto gera uma tensão física e mental que não aparece na ficha técnica do produto.


O corpo do vidraceiro também é ferramenta de trabalho

A indústria vende vidro. O distribuidor vende vidro. A têmpera entrega vidro. A loja vende solução.


Mas, no fim da cadeia, existe um corpo humano levantando, conduzindo e instalando.

Esse corpo tem limite.


E quando o mercado ignora esse limite, transforma experiência em sacrifício.

O ortopedista Renato Ueta, do Grupo da Coluna da Escola Paulista de Medicina da Unifesp, lembrou em entrevista que hérnia de disco não é problema apenas de idosos; ela acomete também pessoas dos 20 aos 40 anos, justamente uma faixa muito produtiva. Ele também destacou que dor lombar crônica e hérnia de disco precisam ser diferenciadas e que muitos casos evoluem bem com tratamento clínico, reabilitação e acompanhamento adequado.


Já Jefferson Coelho de Léo, ortopedista e membro da Sociedade Brasileira de Coluna, associou dores na coluna a fatores como ergonomia ruim, sobrecarga muscular, hérnias de disco, doenças degenerativas, envelhecimento da coluna, esforço físico excessivo, sedentarismo e até tensão emocional.


Ou seja: não existe uma única causa. Mas existe um conjunto de fatores que se repete muito na vida do vidraceiro e do serralheiro.

A dor nas costas já é um problema nacional


Esse assunto não é pequeno. No Brasil, dores na coluna e hérnia de disco estão entre as principais causas de afastamento do trabalho. Em 2023, segundo dados citados pela Folha a partir da Previdência, transtorno do disco lombar apareceu com 51.453 afastamentos e dor lombar baixa com 46.964.


Em 2024, levantamentos publicados a partir de dados do Ministério da Previdência Social apontaram dores na coluna na liderança dos afastamentos, com cerca de 205,1 mil benefícios, seguidas por hérnia de disco, com aproximadamente 172,4 mil.


Quando olhamos para o vidro, a pergunta deixa de ser “será que isso afeta o profissional?” e passa a ser outra:


quanto desse desgaste já está acontecendo em silêncio?

A ampulheta do desgaste


Imagine um vidraceiro que começou aos 20 anos.

Aos 25, ele já pode ter movimentado dezenas de toneladas de vidro.

Aos 30, talvez centenas.


Aos 40, pode ter passado por uma vida inteira de esforço acumulado.

Aos 50, muitas vezes ele ainda está em obra, ainda está medindo, carregando, subindo escada, resolvendo instalação, corrigindo problema dos outros e tentando manter produtividade.


Só que a coluna dele não começou do zero naquele dia.

Ela trouxe todos os outros dias junto.

É essa a ampulheta.


Cada peça de vidro é um grão.

Sozinha, parece pouco. Somada, vira montanha.

O que precisa mudar

Não se trata de romantizar sofrimento. Também não se trata de assustar o profissional.


Trata-se de enxergar.

O setor precisa falar mais sobre ergonomia, planejamento de obra e preservação física do profissional. Precisa tratar carrinhos, ventosas, cavaletes adequados, equipe mínima, rota de acesso, escada, elevador, apoio e tempo de instalação como parte do serviço — não como luxo.


Também é preciso parar de normalizar o improviso como prova de masculinidade ou competência.

Profissional bom não é o que destrói o próprio corpo para entregar serviço.

Profissional bom é o que dura.


E empresa boa não é a que apenas vende mais vidro. É a que cria condição para o profissional trabalhar melhor, com mais segurança e menos desgaste.

O produto não pode estar acima da pessoa


O mercado do vidro passou muitos anos olhando para o produto.

Produto, produto, produto.


Mas vidro sem profissional não vira obra.

Vidro sem medição correta não encaixa.


Vidro sem instalação responsável vira risco.

Vidro sem vidraceiro e serralheiro é apenas material parado.

Por isso, quando falamos da coluna desses profissionais, não estamos falando de um detalhe de saúde. Estamos falando da base humana do setor.


A coluna do vidraceiro sustenta mais do que vidro.

Sustenta prazo, obra, cliente, arquitetura, segurança, reputação e mercado.


Se liga…

Antes de admirar apenas a transparência do vidro instalado, talvez o setor precise olhar para aquilo que ficou invisível no caminho: o corpo de quem carregou tudo até ali.

 
 
 

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